Pecuaristas que exploram trabalho forçado e invadem terras indígenas estão impulsionando a destruição das florestas brasileiras, enquanto lucram com a falha de toda a indústria em estabelecer cadeias de suprimentos transparentes e sustentáveis, afirmou a Climate Rights International em um relatório divulgado no dia 16 de outubro de 2025. O Brasil reduziu o desmatamento, mas não tomou medidas cruciais disponíveis para fortalecer a rastreabilidade no setor pecuário.
O relatório de 120 páginas, intitulado “Antes que seja tarde: contendo o desmatamento e as violações de direitos impulsionados pela pecuária no Brasil”, constatou que grandes marcas globais de moda e calçados estão ligadas, por meio de suas cadeias de fornecimento de couro, a produtores brasileiros envolvidos em graves violações ambientais e de direitos humanos. A atual falta de rastreabilidade total no setor pecuário significa que o couro e a carne bovina brasileiros – com limitadas exceções – não podem ser considerados confiáveis como livres de desmatamento ilegal ou violações de direitos.
“O Brasil desenvolveu ferramentas poderosas de dados que, se devidamente integradas, poderiam contribuir significativamente para livrar o seu setor pecuário do desmatamento e do trabalho forcado que o sustenta”, disse Daniel Wilkinson, assessor sênior de políticas da Climate Rights International. “O governo e as lideranças do setor agora enfrentam uma escolha: usar essas ferramentas para tornar as cadeias produtivas transparentes e sustentáveis, ou permitir que práticas ilegais continuem empurrando o país em direção a um desastre ecológico.”
Embora as taxas de desmatamento tenham diminuído, elas continuam perigosamente altas, impulsionadas principalmente pelo desmatamento para pastagem de gado. Cientistas alertam que a floresta amazônica está caminhando para um “ponto de não retorno” em que vastas áreas podem secar, liberando enormes quantidades de carbono na atmosfera, com consequencias potencialmente catastróficas para os esforços globais de conter as mudanças climáticas.
Trabalho forçado
Fazendeiros responsáveis pelo desmatamento das florestas brasileiras frequentemente submetem seus funcionários a trabalho forçado e outras formas de exploracão laboral severa. “Quando se encontra desmatamento ilegal, geralmente também encontramos trabalhadores em condições análogas à escravidão”, disse uma procuradora federal do trabalho à Climate Rights International.
Em um dos casos documentados no relatório, fiscais do trabalho resgataram cinco trabalhadores – incluindo um adolescente de 15 anos – de uma fazenda localizada a mais de 200 quilômetros da cidade mais próxima. Os trabalhadores não tinham qualquer meio de comunicação com o mundo exterior nem possibilidade de deixar o local. Um trabalhador resgatado de outra fazenda contou à Climate Rights International que os empregados não recebiam salários, trabalhavam jornadas exaustivas, dormiam sob uma lona e bebiam água que acreditavam estar poluída, suportando esses maus-tratos em silencio por medo dos proprietários, que consideravam “pessoas perigosas”.
Invasões de terras indígenas
O desmatamento causado pela pecuária muitas vezes envolve invasões de territórios indígenas por fazendeiros que querem utilizar essas terras para o pasto do gado. Dois casos documentados no relatório envolvem fazendeiros que criam gado ilegalmente no Território Indígena Krikati, no estado do Maranhão. Desde 2017, invasores desmataram mais de 13 quilômetros quadrados dentro do território para abrir pastagens e assentamentos, isolando a comunidade de suas áreas tradicionais de pesca e caça. Membros da comunidade disseram à Climate Rights International que tem medo de circular pelas suas terras ancestrais devido a ameaças e atos recorrentes de intimidação. “Costumávamos viver da pesca e da caca”, disse o chefe Maurício Krikati. “Hoje, quando vamos caçar, só tem gado, criação de gado, pasto.”
Risco de contaminação nas cadeias de abastecimento globais
Uma investigacão conduzida em parceria com a Repórter Brasil documentou dez casos recentes em que fazendas de gado envolvidas em desmatamento, abusos trabalhistas e/ou invasões de territórios indígenas entraram nas cadeias de suprimento dos principais frigoríficos brasileiros. Alguns desses fazendeiros vendiam gado diretamente aos frigoríficos, enquanto a maioria era fornecedora indireta, transferindo gado para fazendas intermediárias que, por sua vez, vendiam aos frigoríficos. Esses frigoríficos, por sua vez, abastecem curtumes operados pela Durlicouros, JBS, Marfrig, Mastrotto, Minerva ou Viposa.
Uma investigacão realizada pelo Stand.earth Research Group a pedido da Climate Rights International identificou 24 marcas internacionais ligadas, por meio de suas cadeias de fornecimento de 2023 e 2024, a curtumes operados por uma ou mais dessas seis empresas. Entre elas estão marcas de calcados e roupas esportivas, como Adidas, Asics, Converse, New Balance, Nike, Puma, Reebok, Rockport, The North Face e Vans, bem como marcas de moda e vestuário, incluindo Calvin Klein, Clarks, Coca, ECCO, EM, Hugo Boss, Kate Sade, Kompanero, Lacoste, M&S, Michael Kors, Ted Baker, Timberland e Tommy Hilfiger.
*https://cri.org/wp-content/uploads/2025/10/CRI-Brazil-Report_Summary_Portuguese.pdf
São Paulo, 17 de outubro de 2025.