A UNI Global Union deu destaque aos trabalhadores invisíveis que atuam na área de IA em um evento paralelo ao fórum da ONU sobre empresas e direitos humanos desta semana.*
Após um debate no fórum “Salvaguardando os direitos humanos na Era da Inteligência Artificial”, o evento da UNI focou nos milhões de trabalhadores que impulsionam os sistemas de IA nos bastidores.
Na cadeia de suprimentos de dados de IA, as principais empresas de tecnologia – geralmente por meio de fornecedores terceirizados, como empresas de terceirização de processos de negócios (BPOs) e plataformas – dependem de uma vasta cadeia de suprimentos, em grande parte oculta, de rotuladores de dados, anotadores e moderadores de conteúdo para treinar seus modelos de IA, muitas vezes replicando modelos de terceirização comuns nas indústrias de manufatura.
A Secretária-Geral da UNI, Christy Hoffman, afirmou:
“Este é um caso clássico de empresas que preferem ignorar as condições em sua cadeia de suprimentos e que trabalham ativamente para terceirizar sua responsabilidade e prestação de contas. Assim como não acreditamos que varejistas de moda possam fechar os olhos para as condições em que uma camiseta é produzida, acreditamos que as empresas que desenvolvem tecnologia também precisam se mobilizar e assumir a responsabilidade, em consonância com os Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos. Isso exige que as empresas saibam o que está acontecendo em sua cadeia de suprimentos e mitiguem os riscos para evitar danos. Uma solução para este setor é possível e acessível.”
Muitos trabalhadores de IA são empregados com contratos precários e sofrem com metas de produtividade punitivas e roubo salarial generalizado. Moderadores de conteúdo frequentemente têm negadas as pausas e o apoio de que precisam, apesar de serem obrigados a assistir a horas e horas de material extremo e perturbador.
Uma moderadora de conteúdo de Portugal descreveu a intensa pressão para cumprir sua cota de revisão de 1.000 vídeos por dia. Ela afirmou que a meta é quase impossível de alcançar e tem consequências tanto profissionais quanto psicológicas: “É impossível terminar o dia sem se sentir mal; trabalhamos no lado sombrio, moderamos o conteúdo para evitar que os usuários vejam essas coisas horríveis”.
O chefe de TIC da UNI, Benjamin Parton, apresentou aos participantes o Protocolo da UNI para Moderação Segura de Conteúdo, que oferece oito etapas concretas para reduzir danos psicológicos e físicos desnecessários aos trabalhadores que atuam nesse campo altamente traumático: “Protocolo da UNI para Moderação Segura de Conteúdo – As pessoas detrás das telas: Por que as empresas tecnológicas precisam de novos protocolos de moderação segura de conteúdo”.
Meredith Veit, pesquisadora de tecnologia do Centro de Recursos para Empresas e Direitos Humanos, destacou o custo financeiro para as empresas que ignoram o bem-estar dos trabalhadores: “O sucesso da IA depende de dados de qualidade e, se os trabalhadores estiverem sobrecarregados, os dados serão de baixa qualidade”.
Embora as empresas de BPO tenham responsabilidades com seus trabalhadores, muitas vezes não conseguem fazer mudanças significativas por conta própria, porque os níveis de financiamento e os termos e condições são ditados diretamente por seus maiores clientes de tecnologia, explicou Christy Hoffman. Ela defendeu um acordo vinculativo com as empresas de tecnologia para garantir padrões mínimos de trabalho em toda a cadeia de suprimentos de IA – semelhante à forma como a UNI e a IndustriALL Global Union transformaram a segurança na indústria de vestuário de Bangladesh por meio do Acordo Internacional.
O relatório da UNI (em inglês apenas) expõe as condições traumáticas e de alta pressão que suportam os trabalhadores, assim como medidas concretas para reduzir os danos psicológicos desnecessários. Entre elas estão incluídas medidas para abordar a depressão, a agonia e até o suicídio entre os trabalhadores da moderação.
*O ODTI traduziu este texto da UNI Global Union, organização sindical internacional que reúne trabalhadores de mais de 150 países diferentes do setor de serviços para conquistar melhores empregos e melhores condições de vida: https://uniglobalunion.org/news/labour-behind-ai/
The People Behind the Screens: Why Tech Companies Need New Protocols for Safe Content Moderation: https://uniglobalunion.org/wp-content/uploads/The-People-Behind-the-Screens-FINAL.pdf
Brasília e São Paulo, 1º de dezembro de 2025.