Tamara Chuang e Tracy Ross, publicado em em 12 de fevereiro de 2026*
Trabalhadores sindicalizados da fábrica de processamento de carne da JBS em Greeley planejam passar o sábado se preparando para o que pode se tornar a primeira greve de frigoríficos do país em décadas.
Alguns treinarão para serem líderes de piquete, enquanto outros confeccionarão cartazes. Quanto à paralisação em si, que envolverá quase 3.800 trabalhadores da JBS em Greeley? Uma decisão poderá ser tomada até 20 de fevereiro, o único dia em que a JBS está disposta a negociar, disseram representantes do sindicato.
Os funcionários da unidade de produção da JBS estão sob contrato prorrogado desde o final de julho, após o término do acordo anterior. O sindicato pode encerrar a prorrogação com um aviso prévio de sete dias, afirmou Kim Cordova, presidente da Seção Local 7 do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Alimentícia e Comercial (United Food and Commercial Workers Local 7), que representa os trabalhadores da fábrica no Condado de Weld, uma das maiores processadoras de carne bovina dos EUA.
“Se a JBS não retornar à mesa de negociações e não resolver as práticas trabalhistas desleais, então rescindiremos a prorrogação”, disse Cordova.
O sindicato havia apresentado diversas queixas ao Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB) alegando retaliação e alteração das condições de trabalho por parte da JBS, também conhecida como Swift Beef Company. Na semana passada, 99% dos trabalhadores sindicalizados da JBS votaram a favor da autorização para greve, alegando práticas trabalhistas desleais.
A segurança dos funcionários e as condições de trabalho são as principais preocupações do sindicato, que acusa a empresa de tentar extrair mais trabalho da equipe, reduzindo a jornada de trabalho e criando um ambiente de trabalho inseguro. Cordova disse que a fábrica acelerou a linha de produção para processar 420 animais por hora, em vez de 390.
“Não se trata apenas da segurança do trabalhador, mas também da segurança do consumidor. Queremos ter certeza de que todas as partes do animal sejam devidamente inspecionadas e processadas”, disse ela. “Eles estão interrompendo as operações apenas um dia por semana, e é por isso que estão acelerando as linhas. Eles querem que todo o trabalho que normalmente levaria cinco dias seja feito em quatro dias.”
A JBS não respondeu a perguntas diretas sobre as condições de trabalho e segurança, mas ofereceu a seguinte declaração: “Nossa prioridade sempre foi chegar a um acordo justo e consistente que reconheça o importante papel que nossos funcionários desempenham, ao mesmo tempo que apoia a estabilidade a longo prazo de nossas operações e da comunidade de Greeley”, disse Nikki Richardson, porta-voz da JBS, em um e-mail.
A empresa é enorme. Com sede em Greeley, a JBS USA possui 132 unidades de processamento, 109.000 funcionários e opera em nove países, segundo seu site. No terceiro trimestre do ano passado, a JBS Beef North America registrou vendas líquidas recordes de US$ 7,2 bilhões, um aumento de 14,8% em relação ao ano anterior. Nos primeiros nove meses de 2025, as vendas líquidas atingiram US$ 20,5 bilhões, um aumento de 14,5%. Sua matriz brasileira, a JBS SA, é ainda maior, com vendas líquidas de US$ 63,1 bilhões nos primeiros três trimestres, um aumento de 10%.
Mas a empresa já atraiu atenção indesejada em relação à sua força de trabalho no passado. Durante a pandemia, seis trabalhadores em Greeley morreram de coronavírus e centenas foram infectados, o que as autoridades federais atribuíram a condições de trabalho inseguras. Em 2023, uma investigação do Departamento do Trabalho dos EUA constatou que uma empresa terceirizada de serviços de limpeza da JBS empregava menores de idade, alguns com apenas 13 anos, em diversas unidades, incluindo a de Greeley.
Em dezembro, três trabalhadores entraram com uma ação judicial em um tribunal federal alegando problemas de segurança no trabalho e promessas não cumpridas. O processo alega que, no final de 2023, um funcionário da JBS criou e divulgou vídeos no TikTok que a JBS conhecia e aprovava, prometendo empregos e moradia para pessoas que não falavam inglês.
Vários imigrantes do Haiti, que possuíam o Situação de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês), que lhes permitia trabalhar nos EUA, responderam à oferta e sobrecarregaram as opções de moradia disponíveis. Os 17 quartos de um cômodo no Rainbow Motel, nas proximidades, acomodavam até 12 pessoas por quarto, e alguns dos recrutados “tiveram que pagar taxas semanais adicionais pelos quartos de hotel lotados e insalubres”, segundo o processo.
Ao chegarem ao local de trabalho, os recrutados que não falavam inglês ou espanhol não receberam treinamento adequado de segurança no trabalho nem integração com a empresa, e muitos “sofreram ferimentos graves durante o trabalho”. O processo alega discriminação racial, informações enganosas sobre as condições de trabalho e moradia, e redução salarial após a dedução das taxas de recrutamento e das despesas com moradia.
Os advogados dos funcionários disseram não ter um número preciso de trabalhadores afetados, mas “acreditam que possa incluir centenas de trabalhadores”, afirmou Juno Turner, diretora jurídica da Towards Justice, em Denver. O processo busca o status de ação coletiva para os trabalhadores.
A JBS não respondeu às perguntas sobre o processo.
A Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, queria encerrar o TPS para migrantes haitianos, mas um juiz federal bloqueou a ordem na semana passada. O Departamento de Segurança Interna ainda está tentando encerrar o TPS para haitianos.
A fábrica de Greeley opera em três turnos, 24 horas por dia, segundo o processo. Os funcionários da produção atordoam e abatem as vacas, removem o couro e os órgãos, limpam as carcaças e preparam a carne para distribuição a clientes e restaurantes.
O trabalho exige “movimentos repetitivos, ganchos afiados, facas e serras de fita, sacos e caixas pesadas e animais imprevisíveis, entre inúmeros outros riscos”, de acordo com o processo.
Greves em frigoríficos são raras, mas fazem parte de uma história rica nos Estados Unidos, que ganhou notoriedade em 1906 com o jornalista investigativo Upton Sinclair, que escreveu “A Selva”, sobre as condições de trabalho e sanitárias da indústria. No Colorado, a última greve em frigoríficos ocorreu em 1980 na Monfort Packing Plant, atualmente pertencente à JBS, segundo o jornal Greeley Tribune. A última greve nos EUA foi em 1985, quando trabalhadores da Hormel Foods Corp., em Minnesota, entraram em greve.
A indústria também atrai trabalhadores imigrantes e emprega, em sua maioria, pessoas negras. A JBS há muito tempo recruta imigrantes da Somália, Eritreia e outros países africanos. O sindicato afirma que 57 idiomas são falados entre os trabalhadores.
“Esta não é uma fábrica com trabalhadores indocumentados. Temos trabalhadores aqui que estão buscando asilo ou que estão sob o TPS (Situação de Proteção Temporária)”, disse Cordova. “É um trabalho realmente árduo e perigoso e, francamente, não sei onde a JBS encontraria trabalhadores substitutos.”
Apoiar os novos trabalhadores haitianos faz parte do dever do sindicato, acrescentou ela. “Eles são nossos membros”, disse Cordova. “E não foram apenas promessas quebradas. Acreditamos que eles devem receber os salários atrasados. Foi uma situação realmente horrível.”
Outros trabalhadores da JBS fora do Colorado fecharam um novo contrato em maio. Trabalhadores de 14 instalações da JBS em estados como Utah, Texas e Nebraska aprovaram um novo contrato que restabeleceu os planos de pensão, adicionou auxílio-doença e aumentou o salário médio para US$ 23 a US$ 24 por hora, informou a Associated Press.
Mas a maioria dessas comunidades tem um custo de vida mais baixo, disse Cordova. No Colorado, onde o salário-mínimo é de US$ 15,16 e a licença-médica remunerada é obrigatória por lei estadual, esses mesmos ganhos não são suficientes para muitas pessoas. A JBS está oferecendo aos funcionários de Greeley um aumento de 60 centavos por hora no primeiro ano e metade desse valor em cada um dos dois anos seguintes, disse Cordova.O contrato expirado oferecia um salário base acima de US$ 22.
“Os trabalhadores não conseguiriam continuar morando no Colorado com um aumento salarial de 30 centavos enquanto a JBS lucra mais do que nunca”, disse ela. “Eles estão lucrando, mas não estão compartilhando esse sucesso com seus funcionários.”
Brasília e São Paulo, 19 de fevereiro de 2026.
* O ODTI traduziu este texto do Colorado Sun, “veículo de notícias sem fins lucrativos, fundado por jornalistas e premiado, com sede em Denver, que se dedica a cobrir todo o Colorado”: https://coloradosun.com/2026/02/12/greeley-meatpackers-union-strike-jbs-beef-ufcwc