Por Lawrence S. Wittner, publicado em 25 de março de 2026
Com o prazo para o pagamento do imposto de renda federal se aproximando rapidamente, os pensamentos dos contribuintes americanos se voltam naturalmente para a velha questão: por que não existe um sistema tributário mais justo?
Atualmente, campanhas por leis estaduais que taxam os ricos estão em pleno vigor na Califórnia, Colorado, Nova York, Oregon, Rhode Island, Texas e Virgínia, e já conseguiram a aprovação de tais leis em Massachusetts e Washington. Da mesma forma, no Congresso, a senadora Elizabeth Warren e a deputada Pramila Jayapal apresentaram o Projeto de Lei do Imposto sobre os ultramilionários (Ultra-Millionaire Tax Act), enquanto o senador Bernie Sanders e o deputado Ro Khanna patrocinam o Projeto de Lei para que os Bilionários Paguem Sua Justa Parte (Make Billionaires Pay Their Fair Share Act). As propostas para taxar os ricos variam desde o aumento da alíquota de imposto para os indivíduos com renda anual mais alta até a instituição de um imposto anual sobre a riqueza dos americanos mais ricos, ou uma combinação de ambos.
Embora os americanos mais ricos, assim como os demais, sempre tenham pago impostos para financiar os serviços públicos, a disputa girava em torno de quanto deveriam pagar. Os impostos sobre vendas e sobre a propriedade representam um fardo pesado para as pessoas de recursos modestos, mas um fardo muito mais leve para os ricos. Portanto, os ricos tenderam a favorecer essas fontes de receita pública e a se opor a um imposto de renda progressivo, no qual os ricos pagariam uma alíquota maior do que os pobres. Uma longa batalha política por um sistema tributário baseado na capacidade contributiva levou à aprovação da 16ª Emenda à Constituição dos EUA, que autorizou o Congresso a instituir um imposto de renda.
Inicialmente, o novo imposto de renda, embora progressivo, era de pequena escala. Mas, à medida que o governo federal assumiu novas e dispendiosas tarefas — particularmente o financiamento da participação dos EUA em duas guerras mundiais e na Guerra Fria — o imposto de renda federal cresceu proporcionalmente. Em 1944, a taxa oficial de imposto para os indivíduos de maior renda era de 94%, embora, graças a deduções, brechas legais e à limitação da taxa à parcela mais alta de sua renda, os americanos mais ricos, na realidade, pagassem uma taxa muito menor.
Assim como seus antecessores abastados, muitos americanos ricos se indignavam com o financiamento de serviços públicos que beneficiavam pessoas que muitas vezes consideravam inferiores. Por que, perguntavam-se, seu dinheiro estava sendo “desperdiçado” em coisas como escolas públicas, habitação popular e saúde pública, enquanto “as melhores pessoas” frequentavam escolas particulares, moravam em mansões ou condomínios fechados e contratavam médicos particulares? Enquanto conversavam com amigos durante o almoço em seus iates ou em seus clubes de tênis, reclamavam das “rainhas do bem-estar social” e dos “pobres ingratos”.
Consequentemente, o Congresso — pressionado pelos ricos, suas corporações e ideólogos conservadores — reduziu a progressividade do imposto de renda federal. Em 1964, a alíquota marginal máxima foi reduzida de 91% para 70%, em 1981 para 50% e em 2018 para 37%.
Graças a esses cortes drásticos na alíquota do imposto de renda federal, além do tratamento tributário preferencial para dividendos e valorização de ações, títulos e outros investimentos, os americanos mais ricos conseguiram garantir uma alíquota de imposto muito menor do que a maioria dos americanos. De acordo com uma investigação da ProPublica, os 25 americanos mais ricos, que tiveram uma renda de US$ 401 bilhões entre 2014 e 2018, pagaram impostos sobre essa renda a uma alíquota de apenas 3,4%. Aliás, em alguns anos, os maiores bilionários do mundo — incluindo Elon Musk, Jeff Bezos, Michael Bloomberg e Carl Icahn — não pagaram nenhum imposto de renda federal.
No que diz respeito à renda corporativa, o governo federal reduziu a alíquota do imposto corporativo de 53% para 21% entre 1969 e 2025. E isso também gerou enormes benefícios para os americanos muito ricos, que detêm a maior parte da riqueza do mercado de ações. Segundo o Instituto de Tributação e Política Econômica, 23 das maiores e mais lucrativas empresas dos EUA não pagaram nenhum imposto de renda corporativo federal entre 2018 e 2022. E 109 empresas não pagaram nenhum imposto federal em pelo menos um desses anos.
As políticas tributárias do governo Trump elevaram a fortuna dos ricos a patamares sem precedentes. De acordo com um relatório de setembro de 2025 da Americans for Tax Fairness, a riqueza dos 15 bilionários mais ricos dos EUA aumentou mais de 300% após a aprovação do primeiro corte de impostos de Trump e do Partido Republicano, em dezembro de 2017. A riqueza do mais rico deles, Elon Musk, multiplicou-se por 20. No primeiro ano do segundo mandato de Trump, marcado por outro enorme corte de impostos para os ricos, a riqueza dos bilionários americanos saltou de US$ 6,7 trilhões para US$ 8,2 trilhões.
Não surpreendentemente, a política tributária do governo — somada aos baixos salários, à terceirização corporativa, aos ataques aos sindicatos e aos subsídios governamentais para grandes empresas — resultou no aumento da desigualdade econômica nos Estados Unidos. No final de 2025, o 1% mais rico dos americanos possuía cerca de US$ 55 trilhões em ativos — aproximadamente o mesmo valor da riqueza detida pelos 90% mais pobres. “A riqueza das famílias está altamente concentrada e tornando-se cada vez mais concentrada”, relatou o economista-chefe da Moody’s Analytics, uma importante empresa de pesquisa financeira.
Essa crescente desigualdade econômica amplia o poder dos ricos nos assuntos públicos. Cada vez mais, na política, o dinheiro fala alto — e em favor dos republicanos. As contribuições para eleições federais dos 100 americanos mais ricos tiveram uma média de US$ 21 milhões entre 2000 e 2010, mas ultrapassaram US$ 1 bilhão em 2024. Naquele ano, as contribuições para os republicanos saltaram de aproximadamente US$ 300 milhões para quase US$ 1 bilhão, enquanto as doações para os democratas caíram de cerca de US$ 300 milhões para menos de US$ 200 milhões. Um partido político de direita, liderado por um bilionário demagogo que prometia mais cortes de impostos, mostrou-se irresistível.
Em contrapartida, a maioria dos americanos apoia propostas para aumentar os impostos sobre os ricos. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center de março de 2025, a grande maioria dos americanos entrevistados era favorável ao aumento de impostos sobre os ricos e as corporações. Em janeiro de 2026, uma pesquisa da Economist/YouGov revelou que 80% dos entrevistados americanos consideravam a desigualdade de riqueza um problema, 80% afirmavam que os ricos detinham poder político excessivo e 78% consideravam os impostos sobre bilionários muito baixos.
Chegou a hora de taxar os ricos. Ou, como cantava Pete Seeger: “Vá com calma, mas pague”.
Brasília e São Paulo, 27 de março de 2026.
O ODTI traduziu este texto da página da Znet, plataforma participativa para interação com conteúdo educacional, visão e análise estratégica que visa apoiar os esforços ativistas por um futuro melhor: https://znetwork.org/znetarticle/its-time-to-tax-the-rich