A quarta mesa de debates do seminário “Sindicalismo na nova (des)ordem mundial” colocou em análise os rumos das instituições internacionais diante das crises contemporâneas. Sob o panorama de transformações tecnológicas, fragmentação política e emergência climática, especialistas discutiram se o atual modelo de organismos multilaterais caminha para o fim ou se passa por um profundo processo de reconfiguração e disputa de poder.
As tensões estruturais e o papel regulatório da OIT
Juan José Santiago, representante do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Santiago, no Chile, abriu o painel mapeando as tensões estruturais que desafiam a governança global nos últimos 25 anos. Entre os principais fatores, Santiago destacou a mudança no equilíbrio político-econômico mundial, os questionamentos à legitimidade dos organismos multilaterais e as transformações aceleradas no mundo do trabalho, impulsionadas pela digitalização, expansão de plataformas, transições demográficas e econômicas.
“Diante desse cenário, há uma crescente demanda por uma participação mais significativa da classe trabalhadora nos espaços de tomada de decisão”, afirmou. Juan Santiago pontuou ainda que a OIT carrega uma institucionalidade única para lidar com essa realidade, sustentada pelo tripartismo (governo, empresários e trabalhadores), por um marco normativo robusto de proteção laboral e por mecanismos de supervisão e presença territorial.
Contudo, essa estrutura enfrenta brechas operacionais complexas. “Há limitações de financiamento e capacidade técnica, uma forte polarização política em quase todos os países do continente e um ritmo de mudanças tecnológicas que é superior à velocidade de decisão normativa”, alertou o especialista, apontando que o grande desafio atual reside em estender a proteção de direitos a países com altos índices de informalidade e em garantir uma transição justa frente às mudanças climáticas.
A centralidade do trabalho contra o autoritarismo neoliberal
Na sequência, Felipe Vasconcellos, do Instituto Lavoro, propôs pensar a recém-aprovada Convenção nº 193 da OIT como um elemento central para a reinvenção do multilateralismo. Conforme apontou, o impacto do documento vai muito além da regulação do trabalho em plataformas digitais, pois recoloca a centralidade do trabalho em qualquer debate real sobre governança global.
O advogado provocou o público a refletir sobre a viabilidade de uma governança justa sob a hegemonia do neoliberalismo, que opera não apenas como política econômica, mas como uma forma de governo e da vida social pautada na competição e na exclusão. “A lógica neoliberal é autoritária, cruel e trabalha em um processo de exclusão.”
Felipe denunciou o cenário atual como uma combinação de hegemonia neoliberal e captura corporativa das instituições, que anula as preocupações democráticas. Para ele, o momento atual é de disputa regulatória, e o processo de ratificação da Convenção nº 193 pelos Estados nacionais funcionará, fundamentalmente, como o estabelecimento de um piso mínimo civilizatório para frear esses abusos contra trabalhadoras e trabalhadores.
Declínio ou disputa? A perspectiva do Sul Global
Finalizando as reflexões da mesa, Paulo Abraão, do Washington Brazil Office, trouxe uma contraposição teórica à tese majoritária de que a governança global se encontra em um estado de declínio absoluto. Para Abraão, o sistema internacional está, na verdade, sob uma intensa disputa. “Declínio para quem? Para o Norte global? Para as grandes potências? Para o Sul global, para os povos afetados por guerras e para as pessoas que seguem vivendo na miséria, a promessa de criar um sistema que garantisse um mínimo de dignidade nunca se cumpriu. O sistema prometeu universalidade e entregou uma hierarquia de poder.”
Abraão argumentou que o diagnóstico correto não é o de falência de uma ordem antiga, mas o reconhecimento de que essa governança global nunca chegou a ser plenamente democrática. A ineficácia atual das instituições multilaterais para lidar com problemas que ameaçam a sobrevivência da humanidade, como as mudanças climáticas, expõe o limite desse arranjo hierárquico. O cerne do problema, concluiu o debatedor, não é a ausência de regras internacionais, mas sim a recusa e a falta de mecanismos eficazes para obrigar os Estados soberanos a obedecerem e implementarem essas normas.
São Paulo, 1º de julho de 2026.