Ao discutir o tema “Liberdades em xeque: das rupturas ao tarifaço”, a professora Graciela Bensusán, da Universidade Autônoma Metropolitana do México (UAM), analisou como as pressões comerciais dos Estados Unidos moldaram o modelo de trabalho mexicano ao longo dos anos. Bensusán expôs a vulnerabilidade do México dentro de uma interdependência profundamente assimétrica com Washington, cuja estrutura atual deixa o país refém tanto das políticas dos EUA, quanto de rupturas externas.
Como reação a essas pressões, o México implementou reformas internas e alcançou vitórias expressivas contra a precarização: cerca de 3 milhões de trabalhadores deixaram a informalidade e conquistaram direitos trabalhistas. Atualmente, o país avança na recuperação do poder de compra do salário mínimo e na redução gradual da jornada de trabalho, sinalizando uma retomada da soberania laboral na América do Norte. Mas ainda muito suscetível às políticas econômicas dos EUA.
Industrialização, soberania e integração regional na América Latina
Maicon Michel, secretário de relações internacionais da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), defendeu que a industrialização deve ser o principal vetor para que os países da região debatam uma política econômica soberana e comum. Michel destacou a centralidade de iniciativas como o Plano Indústria 10+ e a necessidade de alinhar o desenvolvimento às demandas dos movimentos sociais e territoriais.
Para o dirigente, a ocupação de espaços institucionais pelo campo progressista não garante automaticamente o atendimento da pauta do desenvolvimento, é preciso que haja uma mobilização internacional para que isso se consolide.
O secretário propôs uma integração regional sustentada por uma infraestrutura comum e pela apropriação de ferramentas já existentes, como o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM), hoje subutilizado.”Não podemos pensar que industrialização significa apenas maquinaria; ela passa pela nossa diversidade cultural e pela valorização do trabalho. É isso que nos dará centralidade para diminuir as desigualdades da região.”
Michel argumentou que a articulação entre a Nova Indústria Brasil (NIB), o Plano de Transição Ecológica e o Novo PAC permite debater de forma soberana a matriz energética, a indústria da saúde e a mobilidade urbana. Ele destacou que a atuação sindical tem como alvo três setores altamente interligados, a energia, mineração e mobilidade, defendendo a urgência da diversificação produtiva e da reconversão industrial frente às atuais tensões geopolíticas para fortalecer o Brasil e a América Latina.
O retrocesso desde a Constituinte e a ameaça jurídica à CLT
Encerrando o debate, o economista Paulo Kliass apresentou uma perspectiva histórica sobre o desmonte institucional do Estado brasileiro, apontando que o ataque às liberdades sociais e econômicas começou justamente no momento em que o país coroava sua transição democrática.”Entre 1986 e 1988, o Brasil se preparou para construir o que se imaginava ser um futuro glorioso de desenvolvimento. No entanto, a partir dali, o que vimos não foram reformas constitucionais, mas um processo contínuo de retrocesso político e institucional porque a sociedade que estava sendo desenhada trazia riscos para as nossas elites.”
Kliass apontou que as quase 200 emendas aprovadas nesses cerca de 40 anos de Constituição funcionaram para reverter direitos, movimento iniciado pela agenda neoliberal do governo Collor e consolidado nos anos seguintes. Esse modelo retirou o Estado do papel de motor econômico e organizador social, amparado por uma ofensiva ideológica que contrapõe o individualismo à ação coletiva.
Na esteira dessas reformas, o economista alertou para o risco iminente de a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ser esvaziada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Por fim, analisou o cenário internacional e apontou a contradição do “tarifaço” imposto pela política externa de Donald Trump nos últimos dois anos, que desafia a tendência de liberalização comercial radical sem, contudo, promover direitos. Ele relembrou que a própria austeridade foi colocada em xeque pelos países centrais na crise de 2008 e 2009, quando os EUA recorreram a intervenções estatais pesadas, como a nacionalização temporária de bancos e da General Motors, para evitar o colapso econômico.
Diante de um cenário em que as relações de trabalho correm o risco de retroceder ao âmbito meramente civil e individual, os palestrantes reforçaram que o fortalecimento dos sindicatos e a apropriação de planos de desenvolvimento industrial e tratados internacionais não são apenas escolhas econômicas, mas uma necessidade para o fortalecimento da democracia.
São Paulo, 1º de julho de 2026.