Keith Brower Brown, publicado em 5 de março de 2026.
Uma onda corporativa em torno da inteligência artificial está semeando medo em larga escala entre os trabalhadores. Setenta e um por cento das pessoas nos EUA, de acordo com uma pesquisa da Reuters sobre IA, estão preocupadas com a possibilidade de “muitas pessoas perderem seus empregos”.
Wall Street e as grandes empresas de tecnologia estão promovendo uma enorme campanha de marketing para sustentar seus investimentos maciços e arriscados em IA, prometendo que ela impulsionará um “aumento de produtividade”, o que significa menos trabalhadores e mais lucros.
Mas os trabalhadores podem se animar, pois, até agora, tudo não passa de conversa fiada. Até o momento, a IA tem gerado poucos lucros. Ela pode ser útil em algumas tarefas – rascunhos de código de computador, resumos de grandes volumes de dados – mas raramente se iguala ao talento humano em outras áreas.
Mesmo assim, os investidores estão a caminho de injetar mais de US$ 5 trilhões em IA no mundo todo nos próximos cinco anos. Para justificar esse investimento, é esperado que os empresários vendam a IA como a solução para tudo, desde logística até solidão.
A IA é uma manobra da gerência para tomar o poder, disfarçada como uma inevitável atualização tecnológica. Para combatê-la, os trabalhadores podem usar quatro estratégias comprovadas no passado: identificar o problema real; sindicalizar-se; exigir recompensa; e bloqueá-la.
Identificar o problema real
O primeiro passo para os trabalhadores é separar o joio do trigo. No seu trabalho, quais são os usos específicos da automação ou da IA que a gerência pretende implementar?
Quais usos provavelmente serão um fracasso e quais representam ameaça real ao poder dos sindicatos, à segurança no emprego e à qualidade do seu trabalho? Existem usos que seus colegas desejam, em seus próprios termos?
Essas questões complexas são mais bem respondidas coletivamente, com conhecimento de diferentes departamentos e tipos de trabalho, seja a discussão realizada em reuniões sindicais ou durante o intervalo para o almoço.
Na conferência da United Caucuses of Rank-and-File Educators (União dos Educadores de Base), realizada no verão passado, professores ativistas de todo o país participaram de uma discussão semelhante. Muitos se opuseram à imposição da IA na sala de aula. Outros acreditavam que ela poderia facilitar partes árduas de seu trabalho.
Os professores contrários à IA compartilharam exemplos de como ela havia sido usada contra os trabalhadores e como estava promovendo plágio e desinformação. Os participantes destacaram alguns usos que gostariam de ver como opções, como planejamento de aulas ou revisão de trabalhos anteriores dos alunos, mas concordaram que ela nunca deveria ser imposta pela administração.
O National Nurses United (Sindicato Nacional das Enfermeiras) divulgou, no ano passado, princípios de “justiça da IA” que destacam ameaças específicas, como um algoritmo automatizado decidindo quantos enfermeiros devem ser escalados para um turno ou quais exames devem ser solicitados para um paciente. O sindicato argumenta que os sistemas de computador não podem substituir a expertise humana.
Os executivos frequentemente se entregam. Para se manterem à frente da gestão, os sindicatos podem recrutar membros voluntários para lerem o que os executivos do seu setor estão alardeando na imprensa empresarial e vasculharem a internet em busca do que eles estão prometendo aos seus superiores.
De fato, os maiores usuários de IA estão no alto escalão. Uma pesquisa recente nos EUA e em outros cinco países constatou que 87% dos executivos e 57% dos gerentes utilizavam ferramentas de IA, contra 27% dos funcionários. Essas ferramentas não podem cuidar de um paciente, mas podem executar uma versão aceitável das tarefas da gestão: monitorar trabalhadores, resumir informações e dizer aos investidores o que eles querem ouvir.
Os cortes de empregos causados pela IA podem ser uma ameaça real no seu setor, não porque a automação seja realmente capaz de realizar o seu trabalho com qualidade. Os executivos podem não se importar se os alunos estão sendo bem cuidados, se os fatos reais estão sendo relatados ou se os pacientes estão sendo curados. Eles só querem ganhar dinheiro. A IA lhes dá uma desculpa para permitir que a qualidade do trabalho se degrade.
O executivo e crítico de software Anil Dash observou recentemente que meio milhão de trabalhadores da área de tecnologia foram demitidos desde o lançamento do ChatGPT, principalmente porque os executivos “agora têm IA para usar como desculpa para perseguir os trabalhadores que eles queriam demitir o tempo todo”.
Vagas para programadores juniores foram drasticamente reduzidas, enquanto engenheiros seniores são mantidos para corrigir o código cheio de problemas criado pela IA. Mas de onde virá a próxima geração de engenheiros seniores, se eles não estão aprendendo na prática como programadores juniores? Esses cortes míopes estão criando novas oportunidades para programadores experientes, que poderiam impulsionar soluções gerenciadas por trabalhadores para treinar a próxima geração.
Sindicalize-se
Novas tecnologias podem se tornar uma desculpa para terceirizar seu trabalho para pessoas não sindicalizadas. Para manter a sindicalização, você pode negociar os termos do contrato, fazer demandas diretas à gerência e adotar uma abordagem sindical proativa para o aprendizado da tecnologia.
Nas décadas de 1970 e 1980, Mike Parker, eletricista do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (United Auto Workers) e cofundador do Labor Notes, acompanhava os planos das montadoras para robótica e computadores e desenvolvia programas de treinamento sindical sobre as novas tecnologias.
Quando os gerentes propunham a introdução dos robôs, alegavam que especialistas não sindicalizados teriam que assumir a instalação e a manutenção. Parker e seus colegas afirmavam estar prontos para realizar o trabalho nos termos do sindicato e, frequentemente, venciam.
É uma pena que o sindicato como um todo não tenha seguido seu exemplo. A cada década, desde o final dos anos 1940, os executivos das montadoras fazem grandes promessas de automação por meio da robótica, e os principais dirigentes do United Auto Workers geralmente desistem da luta. Ainda assim, a maioria dos cortes de empregos foi causada pela aceleração do ritmo de trabalho, horas extras obrigatórias e terceirização para fornecedores de peças e fábricas não sindicalizadas no Sul dos Estados Unidos.
Quando a Ponte da Baía de São Francisco-Oakland foi reconstruída há duas décadas, empreiteiras privadas planejaram terceirizar o trabalho com as novas e enormes máquinas de solda para trabalhadores não sindicalizados. “A empresa procurou o sindicato e disse: ‘Temos um contrato com vocês, mas vocês não têm soldadores certificados para operar essas máquinas na região’”, contou Mike Munoz, então líder do Sindicato dos Soldadores de Estaca (Pile Drivers) em Oakland.
“Nosso sindicato comprou uma das máquinas e começou a treinar os membros para utilizá-la”, disse Munoz. “Podemos treinar nossos membros para qualquer coisa. Certificamos todos os soldadores que foram trabalhar na Ponte da Baía. Aquilo se tornou nosso trabalho porque nos dedicamos totalmente a ele”.
Quando se trata de novos projetos de IA e automação implementados pela administração, os trabalhadores podem se recusar a deixar que empresas terceirizadas assumam o controle. Um exército de consultores surgiu para aconselhar os chefes sobre a implementação de IA em hospitais e escolas, desviando milhões de dólares da educação e dos cuidados essenciais.
Seu contrato sindical pode já conter uma cláusula que exige que a administração negocie mudanças significativas no trabalho da unidade. Caso não haja essa cláusula, você pode pressionar por uma nova redação específica. Se você aceitar algumas ferramentas de IA, como resumir mil páginas de prontuários de pacientes, quais categorias profissionais do sindicato operarão os robôs e verificarão o trabalho deles? Manter o trabalho nas mãos dos sindicatos é um primeiro passo para direcionar o que a IA pode e não pode fazer.
Recompensa
Outra estratégia sindical que vale a pena considerar: forçar a administração a pagar aos trabalhadores um adicional como condição para a implementação de novas tecnologias.
O acordo mais famoso desse tipo, para estivadores, mostra ganhos a curto prazo e grandes limitações a longo prazo para essa abordagem.
Em um acordo histórico de 1960, o combativo sindicato dos estivadores da Costa Oeste (West Coast Longshore Union) concordou em permitir a mecanização e o transporte de contêineres nos portos em troca de salários maiores, pensões e a garantia de um certo número de empregos sindicalizados em cada porto. Se os proprietários dos portos reduzissem as contratações abaixo desse número, ainda teriam que pagar esse número de membros do sindicato indefinidamente.
O acordo veio com grandes concessões, já que os membros foram divididos em três níveis com níveis de segurança no emprego radicalmente diferentes. Somente o nível A tinha empregos ou pagamentos garantidos. Quando os proprietários dos portos reduziram drasticamente as contratações. Os estivadores de primeira linha e os dirigentes sindicais não sentiram a urgência de organizar os trabalhadores nos novos polos da cadeia de suprimentos.
“Os contêineres vão para o interior”, disse Peter Olney, que entrou para o sindicato como organizador principal décadas depois. “Você acompanha o trabalho no interior, descarregando e armazenando os contêineres? Isso ficou em segundo plano.”
Outro tipo de recompensa pode ser obtida por aqueles que desenvolvem a nova tecnologia e sua infraestrutura. Os trabalhadores da construção civil têm um tipo de influência particularmente direta sobre o boom da IA: ele não pode ser construído sem eles.
Grande parte da construção massiva de data centers por trás da IA está sendo sindicalizada, mesmo em cidades em expansão distantes. Isso porque os sindicatos da construção civil têm redes nacionais de membros treinados e itinerantes para contatar por meio de seus centros de recrutamento, e podem atender à demanda de mão de obra rapidamente.
Na próxima onda, muitos “hiper data centers” estão planejados para serem 10 vezes maiores do que os já construídos. O maior deles consumirá tanta eletricidade quanto toda a cidade da Filadélfia.
A enorme demanda por mão de obra nesses projetos dá aos sindicatos da construção civil poder de barganha, caso o aproveitem: para atrair novos membros, recusar trabalhos em projetos com maior oposição local e exigir concessões para serviços públicos e meio ambiente.
Uma onda de campanhas locais de base bloqueou 25 data centers no ano passado. Quando os sindicatos se unem a grupos comunitários, ambos podem pressionar mais os incorporadores e governos, como, por exemplo, eliminar as isenções fiscais bilionárias para data centers que podem levar escolas e estradas locais à falência. Na Califórnia, essas alianças sindicalizaram usinas de gás e energia solar e conquistaram algumas reivindicações da comunidade.
Na melhor das hipóteses, esses tipos de acordos de “resgate” podem aumentar os custos para a administração impor uma nova tecnologia e dar tempo para os trabalhadores se organizarem.
Bloqueio
Com força suficiente, os trabalhadores podem conseguir traçar uma linha contra certos usos da IA.
Nas greves de Hollywood em 2023, o Sindicato dos Roteiristas e o Sindicato dos Atores conquistaram restrições ao uso de IA na escrita ou em réplicas de rostos e vozes de atores. Mas, em uma indústria da mídia que se consolida e se torna cada vez mais corporativa a cada ano, os chefes encontram brechas e os sindicatos lutam para acompanhar.
O Sindicato dos Jornalistas lançou uma campanha nacional em dezembro com o lema “Notícias, não lixo”, usando negociações contratuais e pressão pública para exigir limites ao conteúdo jornalístico gerado por IA.
Em sua greve recente, 15.000 enfermeiras da cidade de Nova York conquistaram cláusulas contra certos tipos de uso indevido da IA.
Os trabalhadores siderúrgicos de refinarias de petróleo, em negociação coletiva nacional neste ano, visam impedir que a gerência use ferramentas de IA para monitorar os movimentos dos trabalhadores, avaliar sua produtividade e aplicar punições automáticas.
Cláusulas contratuais existentes sobre condições de trabalho podem ser usadas contra usos degradantes da IA. Use seu processo disciplinar para limitar o uso de punições automatizadas. Use a supervisão da segurança por parte dos trabalhadores para resistir à permissão de que ferramentas de IA tomem decisões arriscadas. Use limites de pessoal para estabelecer uma linha contra cargas de trabalho maiores disfarçadas de eficiência de alta tecnologia.
Afinal, o efeito mais degradante da IA não se limita ao nosso trabalho, mas também às nossas habilidades e imaginação. Quando músicas e filmes são feitos por um robô que junta obras antigas, isso priva o público e os artistas de sonhos mais novos e ousados.
Mesmo em trabalhos mais rotineiros, aprendemos fazendo. A IA não é uma força imparável de progresso. Na verdade, se for usada da maneira que os executivos desejam, ela secará a fonte do progresso: o conhecimento prático dos trabalhadores.
Resistir à tomada de poder tecnológico pela gerência é um grande passo para assumir a responsabilidade pelo mundo que construímos com o trabalho — e para manter aberto o caminho para um mundo melhor.
Brasília e São Paulo, 12 de março de 2026.
O ODTI traduziu este texto do Labor Notes, que é um projeto de mídia e organização que, desde 1979, tem sido a voz de ativistas sindicais que buscam reinserir a mobilização no movimento sindical: https://labornotes.org/2026/03/four-union-strategies-fight-ai