Trabalhadores da indústria de pneus brasileiros enfrentam demissões devido à China

Nem todos os setores estão se beneficiando da entrada de produtos chineses no Brasil. A indústria brasileira de pneus, fortemente sindicalizada e com 32 mil trabalhadores, sofreu grande impacto devido às importações baratas da China, produzidas por mão de obra de baixa renda.

De acordo com uma pesquisa elaborada por um grupo de sindicatos e associações comerciais brasileiras (link ao final deste artigo), “a participação de produtos importados no mercado de reposição de pneus para veículos de passeio e comerciais atingiu um recorde de 72% em janeiro de 2026, enquanto a indústria nacional caiu de 66% em 2021 para 28% em janeiro de 2026”.

 “Dez anos atrás, era o contrário”, afirma Márcio Ferreira, presidente do Sintrabor, que representa mais de 20 mil trabalhadores da indústria de pneus no Brasil. “Eram quase 70% produtos nacionais — pneus nacionais — e quase 30% importados. Agora, é o oposto.”

Márcio afirma que o desejo por uma relação comercial mais profunda entre o Brasil e a China levou milhares de trabalhadores da indústria de pneus a perderem seus empregos em todo o seu sindicato.

“O que está acontecendo no Brasil hoje é uma liberdade de importação absurdamente irrestrita — uma que, a médio prazo, trará grandes consequências para a indústria nacional e também para o governo”, diz Márcio Ferreira. “No entanto, o governo, até agora, não tomou as medidas que outros países já tomaram.”

Ferreira atribui essa realidade à falta de um movimento sindical verdadeiramente independente e por os custos trabalhistas na China serem tão baixos, fazendo que os brasileiros não consigam competir com as importações.

“Por que eles pagam menos na China? Veja bem, a China tem uma cultura diferente da nossa. A força de trabalho — o movimento sindical na China — está evoluindo”, diz Ferreira, ao discutir a relação entre a Confederação Nacional dos Sindicatos da China e o Partido Comunista Chinês.

“O sindicato e a empresa — todas as reivindicações são submetidas ao Partido”, afirma Márcio. “O Partido resolve a questão e a decisão é enviada de volta para a fábrica. Portanto, eles ainda não possuem essa noção do que realmente significa a liberdade sindical.”

Apesar das limitações impostas aos sindicatos na China, os sindicatos brasileiros e a Confederação Nacional de Sindicatos da China começaram a se reunir. Os sindicatos brasileiros esperam que seu relacionamento com os sindicatos chineses possa ajudá-los a conquistar mudanças para os trabalhadores no Brasil.

Os sindicatos brasileiros também começaram a se reunir regularmente com o embaixador chinês no Brasil. No início de março, representantes de três grandes federações sindicais do Brasil, CUT, UGT e Força Sindical se reuniram com a Associação Brasileira de Empresas Chinesas (ABEC).

 “A troca de informações e o entendimento sobre o comportamento e as operações das empresas chinesas no Brasil são fundamentais, assim como o fortalecimento do diálogo, da negociação coletiva, “e o desenvolvimento sustentável de ambos os países”, disse Miguel Torres, Presidente da Força Sindical.

O encontro rendeu aos líderes sindicais brasileiros um convite para se reunirem com líderes sindicais e empresariais na China, em junho.

Líderes sindicais brasileiros como Ricardo Patah, Presidente da UGT, que representa 5,5 milhões de trabalhadores no Brasil, afirmam ter obtido sucesso em suas reuniões com empresas chinesas. Os entregadores da iFood são representados pelo sindicato de Patah. No entanto, os entregadores de aplicativos de propriedade chinesa, como o Meituan, que opera sob a marca brasileira Keeta, e o DiDi, que opera sob a marca 99 no Brasil, não são representados por sindicatos. Após a reunião de março com a ABEC, ambas as empresas de aplicativos de propriedade chinesa concordaram em se reunir com Patah para discutir a sindicalização. Ele atribui o sucesso dessa iniciativa à sua relação com a Federação Nacional dos Sindicatos da China.

“A relação entre nossos sindicatos é muito boa. Estamos conduzindo uma campanha conjunta”, diz Patah. “O que temos com os americanos é maior — é melhor. Institucionalmente — de sindicato para sindicato — nossa relação com os trabalhadores chineses é boa, mas com os americanos é melhor.” “Temos uma reunião hoje para discutir como atacar a Amazon.”

Enquanto conversamos, Patah aponta para fotos na parede em que aparece apertando a mão de Obama. Ele me mostra fotos na parede de sua visita a operários da Nissan no Mississippi, enquanto discute a importância da solidariedade internacional. A UGT chegou a alugar um escritório para um consultor de organização da SEIU, que ajuda a coordenar campanhas contra empresas multinacionais no Brasil. A SEIU e a UGT têm trabalhado juntas para atacar grandes empresas como Starbucks e McDonald’s. Enquanto a SEIU tem enfrentado dificuldades para sindicalizar a Starbucks e o McDonald’s nos Estados Unidos, os sindicatos brasileiros já possuem acordos coletivos com ambas as empresas.

 

Relações sindicais Brasil-Estados Unidos em uma encruzilhada

“Costumávamos ter um contato muito próximo com o movimento sindical americano, mas as coisas esfriaram significativamente”, diz Miguel Torres, da Força Sindical, que conta com 2,1 milhões de membros. Torres é um veterano de 70 anos das greves dos trabalhadores da indústria automobilística brasileira nas décadas de 1970 e 1980, que derrubaram a ditadura.

“Nos últimos anos, nos distanciamos bastante”, diz Torres. “Isso mudou depois dessas crises [de desvio de verbas] envolvendo a UAW. Então, atualmente, não temos nenhum contato oficial com a UAW.”

Em 2025, Trump também cortou completamente o financiamento do Centro de Solidariedade, negando recursos para importantes intercâmbios de solidariedade entre sindicatos americanos e brasileiros. À medida que a presença de sindicatos e empresas americanas diminui, os líderes sindicais no Brasil estão ajustando suas estratégias de solidariedade internacional.

Nas décadas de 1970 e 1980, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística (UAW) enviou dinheiro e pessoal para apoiar os trabalhadores da indústria automobilística liderados por Lula, que entraram em greve contra a ditadura. Essa solidariedade ocorreu em momento em que muitas empresas americanas, como a GM e a Ford, estavam investindo pesadamente no Brasil. Durante a década de 1980, o UAW pressionou com sucesso essas empresas para que pagassem salários mais altos aos trabalhadores brasileiros e melhorassem as condições de trabalho.

Quando os trabalhadores americanos foram atacados, os brasileiros estavam lá para marchar lado a lado contra seus empregadores em comum, onde os líderes sindicais brasileiros tinham contratos coletivos e os sindicatos americanos não.

Quando o UAW tentou, sem sucesso, sindicalizar os trabalhadores da Nissan no Mississippi em 2017, os trabalhadores sindicalizados da Nissan no Brasil protestaram em solidariedade aos trabalhadores que lutavam no Mississippi. Eles chegaram a enviar delegações de líderes sindicais brasileiros para denunciar a repressão sindical no Mississippi. Muitos líderes sindicais ficaram chocados com o que viram no Mississippi.

Em 2013, Lula, após seus dois primeiros mandatos como presidente, chegou a comparecer à conferência da UAW, onde se encontrou com líderes da Nissan do Mississippi. Os líderes sindicais da Nissan ficaram impressionados.

“Quando ele se posicionou em defesa dos trabalhadores no Brasil, percebi que ele realmente se importa com o movimento sindical”, disse Jeff Moore, trabalhador da Nissan do Mississippi, ao People’s World em 2013.

“Acho que isso vai motivar meus colegas a votarem a favor do sindicato.” Na conferência, o UAW até concedeu a Lula o título de membro honorário. O então presidente da entidade, Bob King, presenteou Lula com uma jaqueta do sindicato e, em retribuição, Lula presenteou King com uma camisa do Corinthians, o equivalente brasileiro do Green Bay Packers. (O autor deste artigo é um torcedor fanático do Corinthians!)

Quando Bolsonaro aprovou leis antissindicais e atacou publicamente os sindicatos, o número de sindicalistas brasileiros caiu drasticamente de 12% para 8% da força de trabalho total em apenas quatro anos de governo Bolsonaro. Para reagir, os sindicatos brasileiros distribuíram panfletos com declarações pró-sindicatos feitas pelo presidente americano Joe Biden durante a campanha eleitoral.

“Bolsonaro atacou os sindicatos com muita força. Ele culpou os sindicatos pelos problemas econômicos do Brasil”, disse Rubens Fernandez Silva, Secretário-Geral do Sindicato dos Hoteleiros Paulistas Sinthoresp, ao Payday em 2022. “É muito poderoso quando o líder do país mais poderoso do mundo se manifesta a favor dos sindicatos.”

Em 2022, Biden ajudou Lula a se eleger ao fazer repetidas declarações direcionadas aos militares brasileiros, afirmando que os Estados Unidos não apoiariam um golpe de Estado no Brasil. O apoio dos Estados Unidos é um dos motivos pelos quais a tentativa de Bolsonaro de obter o apoio dos militares brasileiros para um golpe fracassou. Alguns líderes militares brasileiros chegaram a testemunhar contra Bolsonaro, quando ele foi condenado e sentenciado à prisão por tentativa de assassinato de Lula e orquestração de um golpe de Estado.

Em 2023, o Presidente Lula e Biden foram às Nações Unidas e lançaram a “Parceria pelos Direitos dos Trabalhadores”, com o objetivo de fazer com que nações de todo o mundo trabalhem juntas para promover os direitos sindicais.

“As duas maiores democracias do hemisfério ocidental estão defendendo os direitos humanos em todo o mundo e no hemisfério, e isso inclui os direitos dos trabalhadores”, disse o presidente Biden no lançamento da parceria.

Mas agora, sob o governo Trump, o governo americano deixou de apoiar a sindicalização em todo o mundo. Em 2025, Trump cortou mais de 500 milhões de dólares em verbas destinadas à promoção dos direitos dos trabalhadores. A medida devastou o Centro de Solidariedade da AFL-CIO, que promove projetos de solidariedade internacional entre sindicatos.

Como resultado dos cortes orçamentários, a AFL-CIO foi obrigada a fechar o escritório do Centro de Solidariedade no Brasil.

“Uma das primeiras consequências foi o fechamento por Trump”, afirma Ricardo Patah, presidente da UGT. “Temos um trabalho importante com o Centro de Solidariedade.”

Alguns anos antes, em 2022, o então presidente da UAW, Ray Curry, também cortou o salário do consultor de organização da UAW no Brasil, uma medida que foi formalmente protestada em cartas por Miguel Torres, presidente da Força Sindical, sindicato com 2,1 milhões de membros. Fain [atual presidente do UAW Shawn Fain] ainda não renovou o financiamento para os esforços de solidariedade da UAW com o Brasil, mas os líderes sindicais brasileiros desejam que isso aconteça.

“Tínhamos uma conexão muito forte, especialmente com a UAW. Íamos até lá, eles vinham até aqui, e fazíamos reuniões virtuais. Havia todo um processo estabelecido para atender às nossas solicitações; sempre que enfrentávamos um problema aqui que exigisse assistência, eles intervinham para nos ajudar. Então, conquistamos muito juntos”, diz Miguel Torres. “Depois, surgiu uma ruptura. Hoje, essa conexão se perdeu.”

Mesmo assim, apesar do enfraquecimento dos laços com a entrada da China na economia brasileira, Miguel Torres acredita que há um caminho para renovar a solidariedade entre os sindicatos americanos e brasileiros.

 “Acredito que o caminho a seguir é restaurá-la”, diz Torres. “Acho importante mostrar aos trabalhadores americanos — para que eles saibam — que nossa luta aqui continua muito forte. Do ponto de vista da resistência contra o sistema, é importante lembrar o que sabemos que já superamos juntos.”

 

Brasília e São Paulo, 17 de abril de 2026.

 

“Manifesto pela Indústria Nacional de Pneus e do Ecossistema da Borracha”: https://sintrabor.org.br/wp-content/uploads/2026/03/MANIFESTO-INDUSTRIA-PNEUS-E-SEU-ECOSSISTEMA-06-03-2026.pdf?ref=paydayreport.com   

 

O ODTI traduziu este texto do Payday Report:  https://paydayreport.com/as-u-s-automakers-unions-pull-out-of-brasil-chinese-automakers-sometimes-slave-like-conditions-move-in-2/?ref=payday-report-newslettert